quarta-feira, 9 de novembro de 2011

No meu quarto tem as brincadeiras de infância
Os desejos vulcânicos
E horizontes da velhice.
Traduzidos em símbolos e olhares.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Ora iê iê!

A semente que dança na cabaça
Estremece meu corpo sob a saia branca
Meu peito vibra com a incessante batida do couro em ritmo de afoxé.
Ora iê iê minha mãe
Desce pro terreiro
Lágrimas e pés descalços,  te recebem
Mãos abertas te saúdam.
Axé da bela mulher forte
Que amansa fera todo dia
Esconde a mais intensa mironga
De baixo de todos os panos.
E se espalha quando gira
As contas sobre o rosto
Mantém o mistério do olhar
Segredos profundos das águas.
Só quem escuta teu canto e recebe teus lírios
Pode desvendar.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Estações

Sou um ser de fases
Amo cada estação
Os brotos e as flores da primavera
Tiveram um longo tempo incubados, encasulados
Esperando o inverno passar
E quando tudo era frio, seco e escuro, ainda assim
A lua brilhava mais forte e a fogueira era confortavelmente quente
Em todas as minhas estações há encantos e novas sementes
Por isso cada primavera que passa há mais flores lindas
E a cada inverno mais lenha e estrelas.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Retomada

Cansada
Mal paga
Cicatrizada
Limite da estafa
Hilaria risada
Destroi a capa
Fechada
Escura
E sem fala
Cabeça nublada
Questiona a estrada
Sem curvas ou placas
Nao quero sandalias
Descalça e molhada
Despida na praia
Retoma a vida
O fio da meada

terça-feira, 26 de abril de 2011

Floripodre


Pilares apodrecidos na margem do rio, sustentam a fome. Miséria fétida entranhada nas brechas das instaveis estruturas emboloradas.
Cidadãos que erguem o mundo, movimentam as ruas, as bolsas, os números
Dormindo na calçada dura da hipocrisia capitalista.
Lógica egoísta de produção
Açorianos caem com mãos e joelhos no chão
Dispostos a se refabricarem em prol de novas urbanidades estrangeiras.
Inúmeros núcleos paradisíacos sustentados pela podridão.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O alto do muro


Joelhos fracos sobre a tênue linha bamba que parece terminar ao lado do amante. Distante. Meus dedos imprecisos tocam a película que separa dois mundos. Somente o cheiro inebriante e perspicaz transpõe a barreira e aguça o desejo de alcançar. Mas a certeza suspende os braços cansados e abana o lenço umedecido. Segura beleza ganha um prefixo.
Profunda respiração frente a quilômetros de sizal em nó. Em uma mão, a agulha, na outra, a tocha acesa. Os últimos grãos enfileirados na ampulheta ecoam e sinalizam o fim. Sobre o muro a visão de dois mundos atraentes que se aniquilam antes mesmo da última partícula alcançar o topo da colina movediça.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Brilho rubro

A estrela rubra que pulsa
Soa como um grito de revolta
Atrai inconformados
E expulsa engravatados

Punhos serrados
Firmeza no intento
Canhotos revolucionarios
Tiram do chao o sustento

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Samba de todas as cores

Chão batido
Firme pisada
Bela rodada
Levanta a saia!

Entra a mulata
Rebola e se espalha
Galega atentada
Arrisca imbigada

O canto do povo
Sem nome e sem raça
Brilha na rua
Gostosa sambada


É coisa da terra
De todos os seres
De todas as cores
Saravá aos tambores!

Entregue à vida

Os que me calavam
Me amarravam
Mordaças suadas
Engolia meu grito

Liberdade tolhida
Sutiã almofadado
Coleira estampada
Recato é um fardo.

A natureza intimidada
Reprimida e julgada
Rasga a camisa
Se joga na estrada

A vida é uma selva
Só restam as rochas
Feliz em não ser pedra
Minha flor desabrocha

Sem títulos e atributos
Momentos de entrega
Regados a vinho
Alegre e liberta

segunda-feira, 14 de março de 2011

Meditaçao

Na ponta da rocha que indica o leste
Fixada no costao negro basaltico
Que avança sobre o mar
Revolto e gelado

A dama incontrolavelmente lucida
Contesta a aproximaçao da tempestade
Maos suadas e tremulas
Espalmadas contra o vento
Interrompe a mente no grito

Tudo para!
Somente o chiado infinito
Nascido no silencio
Da lugar ao sopro de alivio

Seu corpo expande
Em meio a nevoa multicolor
Irradiada de seus poros
Unindo-se aos primeiros feixes de raios solares

Além da ordem e do caos
Somente o auge do prazer
Revelado e indizivel

terça-feira, 8 de março de 2011

Campos sob névoa
Das reluzentes plumas
Douradas em dia nublado

Brisa de leste
Renovaçao dos caminhos
Novo horizonte
Tapete florido

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

As chamas que antes ardiam de prazer
Agora consomem o que resta de mim
Entrego-me tardiamente
Ao destino irrevogavel
Que cumpre a leitura das cartas sombrias

Meus pensamentos me levam à Oxum
em sua lagoa de lagrimas e desespero
Me perco na inconstancia dos sentimentos
Em palavras injustas e apegos

Inerte solto-me nas aguas frias
Nas maos da mae que colhe lirios no rio
O afago de suas maos macias
Me reconstroe e preenche o vazio

Fricciono a pele
Na tentativa de retirar teu cheiro
Demarco um novo roteiro
E de meu cerne invoco a força
que me lança de volta aos meus braços acolhedores

Volto a mim
Mato as saudades
E me encho de amores

domingo, 20 de fevereiro de 2011

As ondas sonoras de meus gritos
Ecoam nos pilares ruidos
do castelo construido
sobre a carne pulsante de meu peito

No salao principal
As pinturas na parede revelam
a alegria de outrora
Coberta por teias e poeira

O espelho quebrado
Revela um ser enfraquecido
Sugado por maos amadoras e grosseiras

Maos que revelam o desejo calado
O corpo suado, a vontade incontida.

Finalmente... satisfe-se!

O oasis alcançado no deserto
o gole d'agua degustado
e, num susto de tempo,
o cenario corroido.

A incessante procura de um corpo novo
Ilude e detroe o sentimento mais puro
Como uma flor que brotou na suavidade da manha
Agora murcha e incinerada no sol do meio dia.